No Dia Internacional do Voluntário há um exemplo vivo e reconhecido na Loja Social

05/12/2023
Espaço na Avenida 25 de Abril está aberto a doações nas terças-feiras, quintas-feiras e sábados.
Espaço na Avenida 25 de Abril está aberto a doações nas terças-feiras, quintas-feiras e sábados.

Francisca Dourado dedicou a última década a ajudar pessoas que não conhece em Alenquer e sem querer nada em troca

A Loja Social ajudou mais de um milhar de famílias em 12 anos de funcionamento e existe uma pessoa que lhe tem dedicado boa parte do tempo pessoal na última década. Neste 5 de dezembro, Dia Internacional do Voluntário, Francisca Dourado é um exemplo claro do que uma voluntária pode ser: encarnou um espírito de missão e de benemérita após saber que havia ficado desempregada. Todas as terças e quintas-feiras, o número 2C da Avenida 25 de Abril, em Alenquer, é feito de organização, sensatez e também reconhecimento das dificuldades do outro. 

"Observo uma vergonha escondida nas pessoas que aqui vêm. Eu olho para elas e não posso fazer nada. Nunca as julgar e compreendê-las", começa por atentar quem trabalhou numa empresa de telecomunicações até se entregar a uma causa nobre de braços abertos e sem querer nada em troca. "Há pessoas que ajudam famílias diretamente. Eu sou diferente, gosto de ajudar mas não gosto de fazer publicidade sobre essa ajuda e não opto por um contacto direto. Aqui sou uma intermediária apenas, é o que sinto", garante a voluntária que "pensou logo na inscrição no Banco de Voluntariado de Alenquer" assim que ficou sem trabalho. Ajudar é um verbo diariamente conjugado por Francisca, que começou por fazê-lo primeiramente nas escolas do concelho. Aos 65 anos, "nunca pensou ser exemplo" até porque não se senta a pensar na questão. Tenta sim arranjar doações, ajudar quem procura a Loja Social e procurar mais voluntários para o espaço. Falta quem queira assumir um compromisso.

"Isto é quase como um trabalho. Venho todas as terças e quintas-feiras. Entrei em 2013 e no início, com a dona Elisa, aguentávamos o barco. Fomos só as duas durante uns anos. Ela estava de manhã e eu à tarde. Por motivos de saúde, ela deixou de poder vir. Tomou-se aí a consciência da dificuldade que é arranjar pessoas para aqui estar. As coisas estão a correr muito bem. Era bom ter mais espaço, mas onde as pessoas tivessem um bom acesso. As pessoas teriam de poder chegar de transportes públicos e é muito difícil que exista um lugar melhor do que este", reconhece a também voluntária na Universidade da Terceira Idade, onde ainda arranja tempo para ajudar os mais idosos "a mexer nos telemóveis, lidar com a Internet e encontrar informações úteis".

Pensar no próximo é prática comum apesar da vontade de não se deslocar à Loja Social "acontecer a toda a gente". "Principalmente se estiver a chover muito (risos). Mas estamos cá, a pensar nas pessoas", diz, referindo que o perfil das pessoas que procuram roupa pessoal, roupa de casa, calçado ou utensílios vários foi mudando com o tempo. "Há pessoas que vêm cá desde o meu início aqui, mas são poucas. Há outras que deixaram de vir. O que noto é que vêm agora muitos estrangeiros, mais cidadãos africanos e brasileiros. Têm idades mais baixas agora", frisa Francisca, dando também conta que as doações recebidas variam em quantidade e no número de pessoas que o fazem. Mas há um momento que se destaca nestes 10 anos de contribuição voluntária.

"Tem sido semelhante no tempo mas igual à que recebemos no início da guerra da Ucrânia nunca houve. Gostava de deixar claro que a Loja Social não é um caixote do lixo. O conceito não deve ser ajudar os pobrezinhos. As pessoas têm necessidades. Quando era mais nova também vesti roupa em segunda mão e nunca me senti pobrezinha por isso. Talvez porque nunca dei importância à roupa. Oferecer coisas rotas ou sujas deveria fazer as pessoas sentirem vergonha. Esses items deveriam ser colocados no lixo", argumenta.

As pessoas com necessidades reconhecidas que se dirigem à Loja Social estão já sinalizadas pela Ação Social da Divisão de Desenvolvimento Social da Câmara Municipal de Alenquer. A quantidade de roupa que as pessoas que poderão levantar não está limitada e "apela-se ao bom senso". Ainda assim, o agregado familiar define a tipologia de items a requisitar. "Tudo o que as pessoas aqui deixam é registado. Quem quiser doar, toda a gente pode fazê-lo, nos horários em funcionamento. Todas as doações que quem precisa vem aqui buscar também são registadas. Cada pessoa tem um processo aberto, com o agregado familiar. De três em três meses, é feito um balanço", esclarece. 

Em 10 anos ao serviço da comunidade, foram várias as ocasiões em que Francisca Dourado se deparou com momentos em que a emoção tomou conta da conversa de quem procurou a Loja Social, para si ou para os familiares diretos. A forma como enfrenta estes constrangimentos acontece de forma a evitar que estas pessoas, tantas vezes em situações-limite, não fiquem ainda mais melindradas. "Já tive aqui pessoas a chorar. Eu tenho um feitio engraçado. Com a pessoa na Loja, mesmo que ela esteja emocionada, eu contenho-me. Eu não choro com a pessoa aqui. Se ela não estiver presente, as lágrimas podem ir aos olhos. Contenho-me perfeitamente sem me emocionar e parece que não estou a sentir nada, mas estou. Não adianta estar a chorar com a pessoa, não a vou ajudar em nada. As pessoas normalmente não querem ouvir nada, querem desabafar um bocadinho ao vir aqui", garante quem tem no yoga o "segredo para continuar ativa e na Loja Social". "Mesmo quando estava a trabalhar, tinha sempre cuidado com as outras pessoas. Sempre quis que as pessoas estivessem bem. Sempre vi as coisas mais além", atira.

O suporte nesta jornada de uma década é sem dúvida o marido. "Ele é um espetáculo. Estou nisto há 10 anos e tenho um apoio muito grande dele, quer na liberdade que tenho – e não havia de ser de outra forma (risos) – e no aspeto financeiro. Ele também gosta de ajudar. Não seria pessoa para vir para aqui mas quer ajudar. Já levei coisa para ele consertar lá em casa. Até monetariamente também já ajudou", afirma Francisca Dourado.

Um exemplo reconhecido

Paulo Franco, vereador do Município de Alenquer, descreve a participação de Francisca Dourado na Loja Social como "um grande exemplo de cidadania". "A dona Francisca demonstra um compromisso. São 10 anos consecutivos, estando presente todas as terças e quintas-feiras e até sábados, a dar o seu apoio à população. Quando se pode falar em exemplos de cidadania e alguém pode oferecer algo de si ao outro, a dona Francisca é realmente um bom exemplo disto mesmo. Parabéns para ela e que existam muitas Franciscas", vincou o responsável na autarquia pela Ação Social.  

Atualizado a 05 dezembro, 2023
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