Aldeia Gavinha
Aldeia Gavinha, escola A tradição faz remontar ao século XV a fundação deste lugar, que teve origem num casal onde se refugiaram os sobreviventes de uma peste que grassou em povoação próxima, matando a maioria dos seus habitantes. De facto está documentada uma peste, ocorrida em 1493, que dizimou as populações não só de Aldeia Gavinha, mas também de Aldeia Galega, Alhandra, Lisboa e Santarém, o que parece confirmar, em parte, a tradição.
Vestígios da ocupação romana -alicerces, ruínas e cipos com inscrições latinas-apareceram na encosta fronteira ao lugar.
Numa propriedade conhecida por Quinta do Caracol se encontrou, alguns anos antes de 1873, uma grande estela funerária romana, de calcário, que se acha atualmente no Museu Municipal de Torres Vedras.
Luciano Ribeiro afirma que o lugar se terá chamado
Vale de Gavinha – nome que ainda surgirá em 1764 – e diz pensar que o topónimo
Gavieriam, referido num aforamento feito em 24 de março de 1255 pelo mosteiro de Alcobaça a Pedro Domingues, tenha relação com Aldeia Gavinha.
Certo é que em 1497 já o lugar aparece com o nome atual e sendo cabeça de vintena.
A primeira metade do século XVI foi de acentuado crescimento – passa de quatro fogos em 1497 para 17 em 1527 - o que virá a determinar a construção da igreja matriz e a elevação a paróquia (freguesia) e fixar ou atrair um número significativo de famílias nobres e abastadas. Entre elas estão os da Vasa, os César, os Teixeira, os Penteado ou os Leitão, onde se contam cavaleiros e confrades da Casa do Espírito Santo de Alenquer. Na igreja de Santa Maria Madalena se encontram algumas lápides de sepulturas dos séculos XVI e XVII de gente de estatuto elevado. Numa capela lateral está uma, brasonada, pertencente ao capitão Jerónimo Gonçalves, cavaleiro fidalgo e cidadão de Lisboa, e a sua mulher Joana Jácome de Faria. Tem data de 1640.
Sabemos terem também instituído capela nesta igreja Bartolomeu Pereira, em 1662; Maria Afonso Calhar, no mesmo ano; Maria Rodrigues
Grangea, no altar de Nossa Senhora do Rosário, em 1665; o Padre António Espera, em 1690; Estevão Mendes; e Amador Gabriel.
São ainda de destacar, na igreja, azulejos do século XVII.
Entre os soldados portugueses que, durante o século XVI, foram prestar serviço na índia, encontram-se os nomes de Henrique da Gama, João Varela, Manuel Botado e Manuel de Toar, de Aldeia Gavinha.
Numa pequena colina próxima de Aldeia Gavinha, existia, em meados do século XVII uma ermida de Nossa Senhora da Conceição e casas de residência do ermitão. A requerimento de algumas viúvas deste lugar, datado de 1649, lhes foi esta ermida e casas doadas pelo povo, logo no ano seguinte, com o fim de aqui se fundar um recolhimento para mulheres, onde se pudessem criar as filhas de homens nobres. Fundou-se o recolhimento, também de invocação de Nossa Senhora da Conceição, e a comunidade foi crescendo. Compraram-se terrenos para a cerca e as instalações foram beneficiadas.
A obrigação de receber o Sacramento na igreja paroquial, imposta por um novo pároco, e que fazia quebrar as promessas de clausura das recolhidas, fê-las projetar a sua transferência para o lugar de Olhalvo, o que viria a acontecer por 1663, após treze anos de permanência em Aldeia Gavinha.
Capela e instalações do recolhimento foram-se degradando, as imagens trasladaram-se para a igreja paroquial. Nos primeiros anos do século XIX ainda ali existiam as paredes das casas, mas os grandes temporais ocorridos entre 1855 e 1856, que provocaram ali deslocamentos de terras precipitaram o desaparecimento dos últimos vestígios, restando apenas o topónimo
a Conceição, pelo qual é conhecida a colina onde se erguia o recolhimento.Nos séculos XVII e XVIII Aldeia Gavinha continua a crescer: em 1712 conta já 120 fogos e em 1758 mais 19, albergando 481 indivíduos, 41 deles menores. Século e meio depois, em 1911, o número de fogos é menor, 118, mas a população atinge os 492 habitantes.
Em finais do século XIX existia aqui uma filarmónica. Há notícias dela entre 1888 e 1891. Em Aldeia Gavinha nasceu, em 1676, o escritor Francisco de Sousa de Almada. Frequentou a Universidade de Coimbra e escreveu:
Ramalhete apolíneo de várias flores, em nove assuntos, descobertos no nascimento do sereníssimo príncipe o Senhor D. José, Lisboa, 1714; Relação do certame poético-eucarístico que celebraram os Académicos Aplicados, etc., Lisboa, 1724; Suspiros na perda, e alívios na saudade que exprime a alma pelos atos de suas três potências, na morte da sereníssima infanta D. Francisca, Lisboa, 1736; Thalia sacra, ou dramas sacros, etc., Lisboa, 1740 (o primeiro dos quatro dramas é escrito em português e os restantes em castelhano);
Discurso problemático, joco-sério, sobre qual é mais poderosa para atrair o coração humano, se a música, se a eloquência, Lisboa, 1736 (com o pseudónio de Afonso Gil da Fonseca);
Crítica moral contra os vícios em comum, 2 volumes, Lisboa, 1736 e 1737 (com o pseudónimo de Franco de Assiz de Amado e Luca). Terá falecido depois de 1759.
Quis o acaso que nesta terra nascesse também, em 1875, a célebre atriz Palmira Bastos, filha de artistas espanhóis ambulantes, de passagem por este lugar. Representou drama, comédia, opereta e revista. Estreou-se em 1890, em
O Reino das Mulheres, no teatro da Rua dos Condes, com o empresário Sousa Bastos, com quem veio a casar em 1894. Viúva em 1911, casou segunda vez com o ator-cantor Almeida Cruz. No cinema (mudo), entrou em 1922 no filme
O Destino, de G. Pallu. Atuou pela última vez em 1966 na peça
O Ciclone. Sobre ela, escreveu
O Século, em 1960: "Nenhuma outra atriz portuguesa por tão largo tempo, foi primeira figura e há de ser ainda. não é uma relíquia apenas: é uma realidade sempre viva da Arte de Portugal". Faleceu em Lisboa em 1967.
Em sua memória, existem em Aldeia Gavinha, o Grupo Cénico Palmira Bastos, fundado em 1990, e um “Espaço-Memória”, na casa onde nasceu, inaugurado em 2000. A padroeira é festejada em julho. A organização da festa cabe atualmente à Associação Recreativa “Os Reunidos”, fundada em 1972.
Mossorovia José Leite de Vasconcelos, na sua
Etnografia Portuguesa, tratando de focos de moçarabismo no território que veio a ser de Portugal, aponta a existência de dois lugares cujo topónimo, na origem, significava
a moçarábica ou
dos moçarábes:
Monçarvia ou
Moncervia, na freguesia de São João das Lampas, concelho de Sintra, e
Monceravia ou
Monçaravia, na freguesia de Aldeia Gavinha, concelho de Alenquer.
Segundo João Pedro Ferro, em
Alenquer Medieval, após a conquista de Alenquer por D. Afonso Henriques, é possível que a localidade tivesse sido abandonada e os seus habitantes transferidos para a vila de onde teriam sido expulsos os muçulmanos. E conclui o mesmo autor: “A deserção do local pressupõe-se pelo facto de não ser mencionado uma única vez na documentação medieval que compulsámos”.
Na igreja de Santa Maria Madalena de Aldeia Gavinha, na parede lateral, junto da porta da torre, há uma lápide pertencente a uma sepultura, de finais do século XVI, de um casal deste lugar.
Em 1911 contava apenas 6 fogos, onde residiam 27 indivíduos.
Próxima deste lugar está a arruinada Quinta da Cidade, cujos vestígios arquitetónicos apontam para uma construção do século XVI. Destruída a grande casa solarenga talvez com o terramoto de 1755, é na capela, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, construção do século XVII, que se encontra um raro e valioso revestimento de azulejos do primeiro quartel do século XVII.