12 de Dezembro de 2017
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Freguesia de Aldeia Galega da Merceana
Aldeia Galega, Merceana, Arneiro, Paiol, Barbas, Vale Benfeito, Casais Brancos, Corujeira

    
   Já era freguesia em 1259, pertencendo ao termo de Alenquer. Orago, Nossa Senhora dos Prazeres.

    Tem uma área de 19 km². Confronta a norte com o concelho de Torres Vedras e as freguesias de Vila Verde dos Francos e Ventosa; a sul com as freguesias de Pereiro de Palhacana; a nascente com as freguesias de Aldeia Gavinha e Ribafria e a poente com o concelho de Torres Vedras.

    Foi outrora, e talvez ainda seja, o centro de produção vinícola mais rico do concelho.

Bandeira e armas »

 
 
Aldeia Galega 

   
Aldeia Galega, cerca de 1930

   Hipólito Cabaço localizou no lugar ou imediações uma estação eneolítica onde recolheu alguns machados polidos, facto que indicia uma ocupação muito remota destes sítios.

    Luciano Ribeiro refere a existência de uma ponte romana, à saída do lugar.

    Da origem do topónimo diz Guilherme Henriques que “o nome de Aldeia Gallega, tão commum em Portugal apenas significa que o terreno em redor não era fertil ou rendoso mas sim terra delgada, charneca, ou inculto”. Mas a povoação, cuja origem provável Henriques faz remontar aos princípios da monarquia, não foi sempre conhecida por este nome. Chamou-se antes Montes de Alenquer e em meados do século XIII era já um lugar importante. Em 1259 é já sede de freguesia. Em 1282, D. Dinis faz dele julgado, separando-o da vila e termo de Alenquer, como recompensa pela lealdade demonstrada por este povo em seguir as partes do rei D. Sancho, seu tio. Será ainda D. Dinis que finalmente lhe concederá a autonomia, em 1305, através da concessão de foral.

    Separado de Alenquer, continuará o lugar de Montes, entretanto vila de Aldeia Galega, a ter como donatária a Casa das Rainhas.

    Em 1712 pertenciam ao termo de Aldeia Galega os lugares de: Merceana, Arneiro, Vale Benfeito, Barbas de Porco, Palhacana, Aldeia Gavinha, Freixial de Baixo, Freixial do Meio, Freixial de Cima, Cortegana e Atalaia.

    A vila de Aldeia Galega contava, em 1527, com um total de 65 vizinhos, entre eles 6 cavaleiros e 8 escudeiros.

    Entre os soldados portugueses que, durante o século XVI, foram prestar serviço na índia, encontra-se Fernão Penteado, de Aldeia Galega.

    A serem rigorosos os dados demográficos de que dispomos, eles ajudam a explicar as razões que levarão à extinção do concelho de Aldeia Galega, em 1855. Para 1712 apontam-se 130 fogos; em 1758 seriam 52 e 195 indivíduos.

    Em 1911 contará 61 fogos e 254 indivíduos.

    De fundação muito antiga é a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, sede da paróquia. Tem pórtico pré-manuelino e pia batismal decorada ao gosto do Renascimento. É rica em azulejos e telas. A pintura do teto data do século XVIII. Entre as várias sepulturas, no corpo da igreja, destaca-se uma, brasonada, datada de 1553.

    A capela do Espírito Santo, que teve hospital anexo, administrado pela família Pereira Rebelo, encontrava-se em ruínas em 1873. Foi mais tarde restaurada. Tem um notável frontal de azulejos.

    Na chamada Praça, ergue-se o pelourinho manuelino, decorado com motivos vegetais. Em frente, a antiga casa da câmara e a Casa da Rainha, como é localmente conhecida.

    Da arruinada igreja da Misericórdia, próxima do pelourinho, ali instalada em 1616, era padroeiro, em 1758, João Carlos de Miranda. Por meados do século XIX já só lhe restavam as paredes.

    José Gomes Castelo, do lugar de Ribafria, foi grande benfeitor desta Casa. Em 1792, depois de obter autorização da rainha D. Maria I, doa-lhe todos os seus bens para a instalação de um hospital para recolhimento e sustentação dos pobres e cura dos enfermos. As casas onde funcionou este hospital foram, em 1839, concedidas à câmara de Aldeia Galega para ali instalar os Paços do Concelho.

    Outra ermida existiu na antiga vila, da invocação de Nossa Senhora dos Anjos, pertencente à quinta que foi dos Pereira Rebelo, situada nas traseiras da igreja paroquial. Tinha ermitão, durante os séculos XVII e XVIII, e aqui se sepultavam os membros daquela família.

    Já fora do lugar existiu uma ermida de São Sebastião “outrora muito concorrida em romarias” conforme conta Guilherme Henriques.

    Os festejos em honra da padroeira realizam-se no primeiro fim de semana de junho. Na sua organização, conta a Paróquia com a colaboração do Clube Recreativo e Cultural de Aldeia Galega, fundado em 1983.

    Em Aldeia Galega nasceram:

    Irmã Francisca de Meira (1573 – 1636), religiosa da Ordem Terceira de São Francisco, falecida também neste lugar.

    Frei D. Manuel Pereira da Silva, bispo do Rio de Janeiro e secretário do rei D. Pedro.

    Nos arredores do lugar se situam algumas propriedades importantes como a Quinta de Chocapalhas, que pertenceu, nos séculos XIX e XX à família Duff, de origem escocesa.
 
 
Merceana

   Para António de Oliveira Cordeiro Melo, Merceana terá origem latina -Mersi-Ana- significando terras imersas do Ana. Ana seria antigo nome do rio que atravessa o concelho de Norte a Sul. Outro exemplo de um topónimo derivado do antigo nome do rio seria o de Triana, Tri-Ana, ou seja, além do Ana.

    Segundo Guilherme Henriques, a sua fundação data de 1525, “quando depois da fundação do templo de Nossa Senhora da Piedade as continuas romarias necessitaram a edificação de casas de hospedagem para os romeiros, e feirantes”.

    É possível que a origem do lugar seja a descrita por Henriques. Mas a data será anterior. Em 1518 já aqui residiam alguns confrades da Casa do Espírito Santo de Alenquer: os cavaleiros João Leitão, juiz ordinário, e Martim de Miranda. Em 1525 passarão também a fazer parte daquela irmandade o escudeiro Manuel Leitão e sua mulher Guiomar Rebelo, também da Merceana.

    Entre os soldados portugueses que, durante o século XVI, foram prestar serviço na índia, encontram-se os nomes de Fernão Penteado e João Fialho, deste lugar.

    A Igreja de Nossa Senhora da Piedade foi fundada pela rainha D. Leonor, viúva de D. João II, no sítio onde antes estivera uma ermida que se tornara muito concorrida, e que por sua vez fora construída no sítio onde ocorrera o milagre do aparecimento da imagem da Virgem ao boi Marciano. Há nesta igreja dois painéis de azulejos policromos que ilustram essa lenda. No arco triunfal, renascentista, inscreve-se a referida data de 1525.

    Na ocasião das invasões francesas foi esta igreja saqueada e transformada em cavalariça. 1598 parece ser o ano exato do início das obras do Convento de Santo António da Merceana, de frades capuchos, próximo do lugar, no sítio de Charnais. A primeira comunidade fixar-se-á poucos anos depois. A igreja conventual começou a construir-se em 1606. O padroado e capela-mor são concedidos a Damião de Aguiar, chanceler-mor, do Conselho de Filipe I, e sua mulher, como reconhecimento pela esmola despendida para a edificação. Um século mais tarde o convento é ampliado. São, nesta fase, benfeitores, D. João Rolim de Moura, da Casa de Azambuja, e sua mulher. Depois da extinção, foram as instalações conventuais cedidas à Misericórdia de Aldeia Galega, passando a servir de hospital.  
       
    Conserva ainda as suas principais dependências: igreja, portaria, claustro, casa do Capítulo, cozinha, refeitório, dormitórios e cerca. Destacam-se, pelo seu valor, os azulejos da igreja, claustro e outras dependências.

   Só conhecemos dados demográficos acerca deste lugar a partir do início do século XVIII, quando a Merceana era já um lugar muito importante. Para 1712 apontam-se 100 fogos, número que, no entanto, baixará a 56 apenas, logo após o grande terramoto, caso uma e outra informação estejam corretas. Habitantes destes 56 fogos seriam 250.

    Apesar do crescimento posterior, o número de fogos em 1911 – 90, habitados por 383 indivíduos - encontrava-se ainda aquém do número alcançado dois séculos antes.

    Entre as figuras notáveis nascidas na Merceana contam-se:

    Francisco Dias, pedreiro, arquiteto, carpinteiro e piloto, aqui nascido em 1538, falecerá no Rio de Janeiro, Brasil, em 1633. Foi mestre de obras da igreja de S. Roque, em Lisboa, e autor da planta do colégio da ilha Terceira. No Brasil, foi autor de plantas de colégios e igrejas na Baía, Olinda, Rio de Janeiro e Santos, e inspetor-geral das obras dos colégios. Como piloto nunca sofreu um naufrágio.

    Frei António da Merceana, que se celebrizou como um dos primeiros missionários nos sertões do Grão Pará, Estado do Maranhão, Brasil. Faleceu em 1645.

    Rodrigo de Boaventura Martins Pereira, médico, professor e publicista, nascido neste lugar em 1842. Fez o curso da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Estabeleceu clínica na Merceana, de onde saiu para lecionar na escola onde se formara e onde chegou a lente catedrático e regeu a cadeira de anatomia. Publicou Memória, Vinhedos e Vinhos, Cartas ao Visconde de Chanceleiros, A Unidade na Natureza, A Rotação e o Movimento Curvilíneo, José Martins Pereira – traços biográficos.  Faleceu em Lisboa em 1897.

    Na história da imprensa periódica do concelho registam-se dois títulos da Merceana: O Merceanense, que teve duas edições, a primeira em 1911, e a segunda entre 1917 e 1931. A primeira foi da responsabilidade de um grupo ligado ao Clube Merceanense, que, no mesmo ano de 1911, e sob a designação de “Grupo de Rapazes da Merceana”, já havia iniciado O Caústico, jornal manuscrito de que saíram quatro números. Da primeira edição de O Merceanense foi diretor António Borges, editor Eduardo Cardoso, secretário Graciano Caiano e administrador José A. Neves. Da segunda foram responsáveis Mário de Carvalho Mesquita, diretor, e José Marques de Carvalho, editor.

    O Alto Concelho de Alenquer, cujo primeiro número saiu em 15 de março de 1931, deve ter-se extinguido em finais de 1932. Quinzenário, subintitulava-se “Defensor dos interesses do Alto Concelho de Alenquer”. Era propriedade do Núcleo de Iniciativa da Merceana e foi seu diretor e editor Filipe César de Goes e secretários da redação Francisco Luís de Carvalhosa e Mário da Silva Bairros.

    Nos arredores, a Quinta dos Plátanos, outrora Quinta de João Carneiro, foi cabeça de um morgadio instituído no século XVII por Mateus Pais, cónego da Sé de Lisboa.

    Sempre na posse da mesma família, virá a pertencer, na segunda metade do século XIX, a José de Meneses Correia de Sá (1848-1921), agraciado, em 1895, com o título de 1.º Visconde da Merceana.
   O aspeto atual do edifício principal resulta das alterações realizadas durante o primeiro quartel do século XX, sob a orientação do arquiteto João Cristino da Silva. Tem uma capela de invocação de Nossa Senhora da Piedade.
 
 
Arneiro

    Guilherme Henriques, citando Viterbo, afirma que a palavra arneiro “quer dizer um areal, terra, monte, ou praia cheia de areia”.

    Em finais do século XV pertencia à vintena de Aldeia Gavinha e contava sete fogos, número que ascenderá a 13 em 1527. Em 1712 serão já 60. Houve depois um declínio pois, em 1758, conta apenas 32, habitados por 120 indivíduos. A tendência inverte-se no século seguinte e em 1911 terá 359 habitantes, distribuídos por 80 fogos.

    No centro da povoação encontra-se a capela do Espírito Santo, que já existia no início do século XVIII, tendo então anexa uma albergaria ou hospital. Em 1873 estava em estado de ruína.

    Aqui instituíram capela João Afonso, “Rebolão” de alcunha, em 1571, o Padre António de Quental e o Prior António Delgado Franco.

    Festeja-se aqui São João Baptista, no seu dia, organização da Associação Cultural do Arneiro, fundada em 1988.

    Próxima do Arneiro, à beira da estrada Merceana – Torres Vedras, entre este lugar e o do Paiol, situa-se a Quinta de São João, onde se encontra uma antiga capela da mesma invocação que, apesar de bastante alterada, tem peças notáveis de estatuária e azulejaria.
 
 
Paiol

    Em 1758 conta 147 habitantes, distribuídos por 38 fogos. Em 1911 conta 64 fogos e 257 indivíduos.
    
    Embora seus pais residissem em Aldeia Galega, foi neste lugar, na casa dos avós maternos, que nasceu, em 1885, o arqueólogo Hipólito de Almeida da Costa Cabaço.

    Filho de um lavrador e comerciante fixa-se em França em 1901, com o objetivo de se especializar no tratamento e fabrico de vinhos. É nos museus franceses que desperta para a arqueologia e, sobretudo, para o material do período paleolítico. Regressado a Portugal em 1903, desde logo inicia, com os primeiros achados, “a mais extensa e coerente obra de prospeção e exploração dentro dos domínios da Pré-história, realizada na primeira metade do século XX, sobretudo nesse setor ingrato, difícil e controverso que é o paleolítico”. Palavras de Maria Amélia Horta Pereira, que define Hipólito Cabaço como “pioneiro heroico e gigantesco” da arqueologia portuguesa. Para além do Paleolítico, Cabaço localizou estações dos períodos Mesolítico, Eneolítico, Bronze, Ferro, Romano, Medieval e ainda de Paleontologia e Antropologia, nos concelhos de Alenquer, Salvaterra de Magos, Azambuja, Peniche, Caldas da Rainha, Santarém, Abrantes, Elvas, Cadaval e outros, de onde recolheu milhares de peças que vieram dar origem ao atual Museu Municipal Hipólito Cabaço.
    
    Sócio da Associação dos Arqueólogos Portugueses, relacionou-se e trabalhou em conjunto com arqueólogos portugueses do seu tempo como Rui de Serpa Pinto, Eugénio Jalhay, Mendes Corrêa, Afonso do Paço, e estrangeiros como Henri Breuil e Georges Zbyszewsk. Viria a falecer em 1970, na Quinta da Boa Água, junto ao Carregado.

    São Sebastião é aqui festejado no último fim de semana de julho, cabendo, atualmente, a sua organização ao Centro de Cultura e Recreio de Paiol, fundado em 1988.

    Pouco distante deste lugar fica a Quinta da Junqueira, de arquitetura setecentista, em cuja capela, hoje arruinada, existem bons exemplares de azulejos dos séculos XVII e XVIII.
 
 
Barbas de Porco

    Já tinha este nome em finais do século XV. Pertencia então à vintena de Aldeia Gavinha e contava apenas três fogos, número que triplicará até ao final do primeiro quartel do século XVI. Em 1712 serão já 12. Declina então, e em menos de 50 anos, voltará a ter o mesmo número de fogos existentes em 1527 - nove, habitados por 40 indivíduos. O século XIX será de crescimento. Em 1911 conta 157 habitantes, distribuídos por 33 casas.

    Em 1731 existia neste lugar uma ermida de Nossa Senhora do Rosário.

    A Barbas esteve intimamente ligada nos séculos XVII e XVIII uma família - Correia de Almeida e Meneses -  detentora das quintas de Barbas de Porco e do Anjo, esta já fora do lugar, mas bastante próxima. Esta pertenceu, no século XVI, a uma família Avelar, como atesta o brasão de armas que se encontra na fachada principal do edifício. Tudo aponta para que se trate dos Avelar de Alenquer, uma das principais famílias daquela vila ao tempo, de quem procedem, por exemplo a mulher de Lançarote Gomes Godinho, alferes da bandeira real na Índia, ou a mãe de Manuel de Gouveia, correio-mor do reino. Já na segunda metade do século XIX, mais concretamente em 1873, a Quinta do Anjo está na posse de António Joaquim Vieira de Magalhães, 1.º Conde de Magalhães, que chegou a ocupar a pasta dos Negócios da Fazenda, em 1870, por curto período.
 
 
Vale Benfeito

    Aponta-se para 1712 a existência de 16 fogos neste lugar, número que terá sofrido um declínio para menos de metade em 1758: 7 fogos, habitados por 30 pessoas.

    Em 1911 alcançara já os 181 habitantes distribuídos por 42 fogos.

    Em junho, terceiro fim de semana, realizam-se aqui os festejos em honra do Divino Espírito Santo. A sua organização é atualmente da responsabilidade da Associação Cultural de Vale Benfeito, fundada em 1976.
 
 
Casais Brancos

    Em 1758 viviam aqui 28 pessoas distribuídas por nove fogos.

    Em 1911 conta 44 fogos e 230 indivíduos.

    Em julho, segundo domingo, realizam-se aqui os festejos em honra do Divino Espírito Santo. Atualmente são organizados pela Associação Recreativa Cultural de Casais Brancos, fundada em 1980.

    Casais Brancos é lugar conhecido pelo seu miradouro, de onde se desfrutam excelentes vistas de todo o Alto Concelho de Alenquer.
 
 
Corujeira

    “Povoação reles, em sítio penhascoso, mais próprio para a criação de corujas”, é assim que a generalidade dos dicionários define o nome deste lugar, situado na estrada entre Aldeia Galega e Sobral de Monte Agraço. Parte dele pertence ao concelho de Alenquer, freguesia de Aldeia Galega, pertencendo ao de Torres Vedras outra parte.

    Em 1530, Diogo Álvares da Rocha, da Corujeira, contador do juízo Geral de Alenquer, era confrade da Casa do Espírito Santo.

    Em 1758 contava 6 fogos, neles residindo 34 pessoas. Em 1911 são 11 os fogos e 53 os indivíduos.

    No meio de grande mata, a Quinta da Corujeira apresenta, nas suas edificações, dois períodos: o século XVII, quando pertenceu aos Marqueses de Marialva, e os finais do século XIX, quando se encontra na posse do Conde do Casal Ribeiro.
 
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